sexta-feira, 31 de julho de 2015

Três cutucadas às 06:00 am

                                                                          Imagem da Internet

Foi somente ontem que doeu. Ontem, uma semana depois que você saiu dessa casa, sendo realmente o fim, quando chegamos à conclusão que não havia mais possibilidade de recomeço assim como em vários outros fins. Eu pensava que sofreria tanto nos primeiros dias. Ao perceber que eu não deito e acordo mais ao seu lado. Ao entender que agora na mesa é um prato ao invés de dois. Ao descobrir que no banheiro tem apenas uma escova de dente e que aqueles sapatos que estavam guardados por tanto tempo podiam, finalmente, serem doados. Que o cheiro do seu perfume já não exala na casa, misturando-se com o aroma da manhã. Que não há mais brigas pelo controle remoto da TV, pela janela aberta ou fechada a noite. Mas não, nada disso doeu. Como consegui me dar conta de tudo isso sem chorar? Como olhei essas coisas acontecendo e não doeu?
Não doeu ver a porta fechando atrás de você, indicando que não teria mais volta. Não doeu aquele encontro despreparado na esquina, nem mesmo o beijo no rosto dado tão sem jeito. Não doeu entender que agora somos dois seres distintos que não partilham nada além das lembranças daquele um só corpo que fomos um dia. Lembranças que serão levadas de pouco em pouco por cada ano que dobrar a esquina, à medida que outros anos batem à porta trazendo novos projetos, novos objetivos e novos amores.
Ontem à noite, quando tive que desligar o despertador que ficava no automático pronto para me acordar no horário em que somente você tinha necessidade de levantar foi que eu percebi que não havia mais nenhum elo entre nós. Nada tinha doído, até ontem quando percebi que eu não precisava fazer aquilo que fiz, sem nenhuma vontade, esses anos todos.  O que eu menos gostava de fazer foi aquilo que me ajudou a perceber que você não estava aqui, que já havia ido embora e talvez (agora eu enxergo melhor) cedo demais - toda força daquele ponto final escrito há uma semana foi embora para o lixo junto com a opção 06:00 a.m. do despertador do celular. Eu não precisava mais te dar três cutucadas leves para acordar. Pareceu-me que estava ao contrário: agora quem estava recebendo essas cutucadas era eu, me acordando para a realidade e, diferente daquelas que te acordavam, essas doíam. Doíam tanto que eu chorei e senti o frio de estar sozinho numa cama enorme, senti o medo de estar sozinho numa casa também enorme e que cabe direitinho você e suas quinquilharias. Senti o desconforto que a solidão é para alguém implicante - não havia ninguém pra eu dizer que estava errado, para eu discordar. Não havia ninguém para eu acordar no dia seguinte.

Você se lembra de um dia me dizer que eu tinha necessidade de me sentir necessário para os outros? Pois é! Você estava certo. Foi ver que você não precisava mais de mim nem mesmo para te acordar, que me fez despertar e entender que foi eu quem sempre precisou mais de você do que ao contrário, que eu só sou verdadeiramente eu quando estou com você. É mais por mim do que por você que eu te peço e espero que não seja tarde – “pra nós dois nunca é tarde”, lembra que dizíamos isso nas madrugadas repletas de filmes antigos?! – volta pra casa, deixa eu te acordar por pelo menos mais cem anos, mesmo eu reclamando. Afinal, é disso que o amor é feito, de doações dos dois lados, feito de você fingindo que precisa das minhas três cutucadas para acordar e eu fingindo que faço isso por obrigação.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Dois patinhos na lagoa

Imagem da internet                                                                         

Numa dessas madrugadas de insônia, quando tudo se torna mais intenso e interessante, me peguei pensando que estou prestes a completar 22 anos – dois patinhos na lagoa. Eu venho pensando há tempos que esse dia se aproxima, mas fazia anos que não me lembrava dessa expressão. Lembro-me, na infância, de ouvi-la encantado com a possibilidade de um dia ter meus próprios dois patinhos na minha lagoa, algo na época muito mais interessante para mim que ter 15 ou 18 anos, idades igualmente emblemáticas. Pois essa época está chegando em minha vida e como todas as outras idades tão aguardadas, não acontecerá nada demais, assim como nunca aconteceu. Devido a crenças pessoais eu não sou dado a comemorações de cumpleaños, mesmo assim, sou inundado por reflexões e expectativas nessa época. Olho para trás e vejo como fui corajoso ao enfrentar situações desafiadoras e, ao mesmo tempo, me sinto fraco e impotente ao perceber que muito ainda precisa ser feito, muito chão tem para ser percorrido. Ainda virá os 32, os 52 e espero, de verdade, os 102 anos. Olho para trás e vejo que os sonhos e desejos daquela criança que achava a ideia de 2 patinhos na lagoa algo sublimar se foram, assim como essa expressão que ninguém mais conhece. Coisas muito melhores e diferentes aconteceram e melhores ainda, com certeza, virão. A ordem é crescer sempre!


Ps: não sei se são realmente dois patinhos na imagem, rsrs. Me perdoem se forem dois gansos, dois marrecos, dois cisnes...

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Redução da maioridade penal - por que eu sou contra



Um dos assuntos polêmicos em alta é a proposta de redução da maioridade penal. Muitos a favor, outros tantos contra e eu apenas observando. É que não sou mesmo de me expressar sobre esses assuntos polêmicos já que tanta discussão sempre fica tão acalorada que perde o sentido, afinal, é difícil aceitar a opinião dos outros. Os poucos formadores de opinião que eu sigo nas minhas redes sociais, na sua maioria são contra a redução, mas nos comentários das suas postagens há muitos que concordam que deve ser reduzida, justificando sempre com as mesmas palavras: “levem eles pra sua casa, então...”, “queria ver se eles matassem alguém da sua família...”. Mesmo assim, eu ainda não concordo com a redução da maioridade penal e vou explicar os meus motivos, baseados apenas no que eu vejo e sinto, sem estatísticas e dados para comprová-los.

Eu já fui um adolescente de 16 anos e, por isso, eu sei como essa fase é complicada. Nessa idade eu sabia muito bem o que era certo e o que era errado sim, porém, não entendia as consequências das minhas ações. Um adolescente sabe o que é matar uma pessoa (argumento que quem é a favor usa muito), tanto que muitos matam. Até uma criança tem ciência do que é isso. Os adolescentes sabem que se tivessem 18 anos ou mais seriam presos, mas será que eles veem isso como algo realmente prejudicial e que os marcarão pelo resto de suas vidas? O adolescente quer desafiar tudo e todos, acham que estão acima do bem e do mal e sempre querem ter razão, depois, quando passa dessa fase entende que não era bem assim, que vamos sempre ter que obedecer a alguém, que se fizermos determinadas coisas hoje podemos não ser afetados amanhã, mas um dia isso acaba nos atingindo e pode ser tarde demais pra reverter a situação. Eu penso na minha adolescência e lembro o quanto foi importante ter meus pais e outras pessoas do bem como referências e o quanto elas me ajudaram. E penso também no perfil dos menores infratores. Será que eles têm uma família bem estruturada para serem seus espelhos? Quem é sua referência? Isso leva ao próximo motivo.

Adolescentes são seres influenciáveis. Não há muito o que falar sobre isso, basta passar em frente a uma escola no horário de saída que você verá grupos enormes de adolescentes com o mesmo tipo de roupa, o mesmo corte de cabelo e ouvindo as mesmas músicas. Basta ver uma reportagem de uma turma de menores infratores em que todos darão as mesmas respostas e justificativas iguais. Então, nem é preciso explicar mais uma vez que o contato com os “bandidões” numa prisão comum não será nada bom para os adolescentes. Sim, eu sei, a proposta é que eles fiquem em alas separadas, porém, estarão vivenciando a mesma realidade desse pessoal e o contato, mesmo que pequeno, será inevitável. Se esses adolescentes podem ser influenciados, eles precisam ser influenciados a serem homens dignos e do bem, e uma penitenciaria não é o melhor lugar para isso, ficando bem claro no próximo motivo.

Se a prisão não recupera homens formados, o que dirá de adolescentes influenciáveis? Precisamos entender que o principal objetivo de uma penitenciária é (ou deveria ser) recuperar pessoas que cometeram algum crime, mas que naquele momento representam risco à sociedade. Entretanto, é usada como um depósito de bandidos. Não poderia ser assim, já que depois de um tempo eles saem e podem viver suas vidas normalmente. Se fosse para ser encarado como um lugar para aprisionar incorrigíveis, estes deveriam viver o resto de suas vidas encarcerados e isso não acontece no Brasil. Como é dito por muitos, infelizmente, a prisão brasileira nada mais é do que uma escola intensiva da bandidagem. Sai-se hoje e volta-se amanhã por cometer um crime mais grave que o de antes e isso não será diferente com os adolescentes.

Adolescentes já pagam por seus crimes, sendo encarcerados em centros de recuperação para menores que muitas vezes oferecem condições piores que uma penitenciária para adultos. Aqui entra o único dado comprovado por pesquisa que eu me lembro: adolescentes que cometem pela primeira vez algum crime, independente de qual seja, são encaminhados para esses centros e neles ficam por três meses, já as pessoas maiores de 18 anos que são presas pela primeira vez ficam, em média, um mês preso numa penitenciária, isso se for um crime grave. Apesar disso, o número de reincidentes consegue ser bem menor nesses centros que nas prisões.

Não só os jovens que cometem crimes serão afetados com a redução da maioridade penal, todos estarão ainda mais passíveis de passar por situações constrangedoras, talvez por algo que não fez. Lembrei-me de um amigo que há um bom tempo foi abordado pela polícia e foi revistado. Na época ele estava com 16 anos, vindo da casa da tia sozinho, por volta das 19 horas e carregando uma sacola de retalhos de pano. Já havia no local outros adolescentes encostados contra a parede, então, quando ele passava os policiais o chamaram e o revistaram. Veja bem, ele tinha apenas 16 anos, não estava com um bando de outros adolescentes fazendo arruaça, era cedo ainda e carregava uma sacola dessas de supermercado com pedaços de pano, algo totalmente identificável. Se a maioridade penal fosse de 16 anos, as chances de ele ter sido levado para uma delegacia e até para uma prisão de forma injustificada, porque nós sabemos que isso acontece e não é pouco, seriam muito maiores. Talvez essa experiência para um adolescente que está habituado a viver no meio disso, seja vendo acontecer com parentes ou vizinhos, não traria nenhuma consequência, mas para ele que nunca tinha presenciado algo assim foi bem traumático.

Esses são, basicamente, os motivos pelos quais acredito que a maioridade penal não deveria ser reduzida, lembrando, mais uma vez, que são baseados apenas no que eu vejo e percebo.
Eu não sou especialista no assunto, então, não sei qual a solução para combater o aumento da criminalidade e da violência, mas sei que para qualquer adolescente a educação é fundamental e para aqueles que vivem em zonas comandadas pelo crime a assistência social é imprescindível antes que ele entre para a estatística e cometa algum crime porque depois que isso acontecer de nada adianta.
Se quiser saber mais sobre e opiniões de gente que entende do assunto veja aqui, aqui e aqui.
E qual é a sua opinião? A maioridade penal deve ser reduzida? Por quê? Conta pra gente.

Ps: comentários ofensivos e desrespeitosos não serão aceitos

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Se não é uma carta, é um desabafo



Não são nem 11 horas da noite de um sábado e eu já estou embriagado. Sim, logo eu, que prefiro a sobriedade e a certeza de estar entendendo tudo o que acontece em torno de mim, estou embriagado. Na verdade, eu que adoro a sobriedade, ironicamente também adoro os exageros e nem estou tonto assim, bebi uma taça de vinho apenas (foi cerveja, mas vinho é poético), e meu limite é duas taças, conseguiria tranquilamente degustar mais uma antes de sair à procura de um lugar para descansar. Consigo até escrever isso que eu adoraria chamar de carta (também porque acho poético!), mas nem sei se isso que escrevo, de fato, é uma ou essa palavra “carta” só é usada para escritos à caneta, em um papel e entregado por um carteiro ou por um melhor amigo, então chamarei de desabafo e esse desabafo é a mais pura verdade. Sóbria e sem exageros.
 Resolvi usar da bebida como desculpa para chacoalhar meu cérebro e estômago e vomitar, deixar jorrar aqui todos os sentimentos e pensamentos que me cercam e que envolvam você, pela primeira vez, sem me preocupar onde isso pode respingar e qual será o cheiro daqui a algumas horas, ou dias. Eu não me preocupo porque sei que dificilmente você o lerá, e se ler não entenderá que se trata de você, ou do que você representa pra mim, que pode ser pura fantasia. Uma imagem retorcida, vista por um filtro de nome estranho, desses que se usam nas fotos encontradas em redes sociais, mas que pode ser também realmente você. Claro. Nítido. Simplesmente você, debaixo de um holofote visto por mim de longe e perto também. Você, na minha sensibilidade, quase sobrenatural, de enxergar as pessoas como elas realmente o são.
Todas essas palavras combinariam muito bem com perfeição e talvez seja isso que você está pensando - que eu te acho perfeito, mas não. Você passa longe da perfeição e isso é o que me atrai. Exatamente essa sua arrogância em relação aos seus defeitos, essa sua pouca vontade em concertá-los. Logo você que adora essas coisas de evolução pessoal consegue conviver tão bem com seus defeitos, sabe respeitá-los, nunca os menospreza como todos fazem. Você entende que eles têm o seu valor e sua beleza. E isso é irônico, como eu fui ao usar sobriedade e exageros na mesma sentença. Talvez seja essa uma das poucas similaridades que temos: essa coragem inexplicável de se contradizer sem se sentir culpado, nem sequer se sentir menor por dizer que “ama”, “odeia” e nunca “gosto” e “não gosto”. De dizer sim quando, na verdade, quer dizer não. Ir quando quer ficar. Continuar quando deveria parar. De parar quando o melhor era persistir. De tentar quando as chances se esgotaram.
Você que, mesmo tão autêntico, vestiu a fantasia do seu herói favorito e esqueceu-se de ser o que realmente é: humano fraco e indefeso, como todos os outros que estão à procura da felicidade, de se libertar das amarras que nós mesmos nos colocamos e que sequer experimenta, ao menos uma vez, seguir o seu ímpeto, seu desejo, seu coração, mesmo sabendo que ele é traiçoeiro. Quer saber, eu experimentei e gostei. Hoje quase nunca me deixo levar, sigo o meu ritmo, minha vontade.
Você que entende tão bem do sobrenatural e esquece o normal. Você que deseja o mesmo que eu, mas finge que não, mais uma vez se importando com as convenções. Você que apesar de tudo me faz sentir bem e querer sempre melhorar, você que desperta as coisas boas que muitas das vezes ficam guardadinhas na caixinha de lembranças da criança que fui um dia, aquelas coisas que infelizmente vamos guardando ao longo do caminho, mas que cabia muito bem em nossa vida.


Gostaria mesmo de entender você e te ver tão claramente como acho que posso, afinal, tudo seria mais fácil, nossas conversas de minutos se estenderiam por horas, nossa vontade seria grande o bastante para termos coragem de nos vermos, enquanto isso continuo daqui e você daí, separados por quilômetros e unidos pelas diferenças, fingindo que não me importo e você fingindo que se importa. Usando da euforia contida numa taça de vinho para justificar aquilo que eu jamais diria na minha sobriedade cotidiana.

quarta-feira, 10 de junho de 2015

A vida continua ...

Quando ouvi dizer que as reticências, ou os famosos três pontinhos são usados por pessoas indecisas, que não sabem o que querem e que deixam sempre suas afirmações em aberto, eu que não queria demonstrar nada disso, mas amava usá-las, tratei logo de deixá-las de lado. Queria mostrar, mesmo com toda insegurança interna, que estava certo do que estava dizendo e logo passei a terminar minhas frases sempre com pontos finais e, se queria enfatizar, com pontos de exclamação. Interrogações?! Sempre acompanhadas por um ponto de exclamação, por que não?! Mas... Pensando bem... Acabei por deixar essas convenções de lado... Reticências pra mim é o sinal de que a vida continua.

Quantas vezes você achou que nada daria certo, que estava no fim do túnel e sem luz, que a morte estava perto, que tudo tinha acabado, que o fim era eminente, mas que, como num passe de mágica, as coisas deram certo, uma luz acendeu, você estava mais vivo que nunca e tudo estava apenas começando.
Todos, por mais fracos que sejamos ou que pensamos ser, temos essa capacidade incrível de morrer para logo reviver. Você achou que não conseguiria, sofreu, passou noites sem dormir, às vezes sem comer, mas depois, você achou uma brecha ali, alguém te mostrou outra forma, você tentou de novo e de novo e, pronto, deu certo. O vendaval que se formou na sua vida passou e tudo ficou ainda melhor. A vida continuou pra você. Continuou também para a Antônia que sofria por não ter filhos, mas que entrou na fila de adoção e veio logo dois. Continuou para o Rogério que procurava o amor da sua vida e sofria por isso, achava que felicidade mesmo só compartilhando a vida com alguém, sofreu tanto que, um dia andando de cabeça baixa por aí encontrou aquela pessoa que sempre sonhou. Continuou pro Frederico que ralou pra fazer faculdade, que vendia o almoço pra comprar a janta, que estudava com livros usados, que esteve a ponto de desistir várias vezes, mas enfim, se formou em Medicina e montou seu próprio consultório. A vida continua pra todo o mundo. Isso quer dizer que, por mais que escolhemos abolir as reticências e usarmos somente pontos finais e exclamações em nossas frases, na vida não dá pra sermos tão seguros assim, estamos sujeitos a variações de humor, de dor, de amor. Afinal, a vida continua e tudo muda. O ideal é termos sempre as reticências em mãos porque quando tudo mudar, se estivermos abertos, teremos a chance de nos reinventar e continuar, tentar mais uma vez ou começar de novo agora mais fortes e mais experientes.


A única certeza que temos é que se não continuamos é porque morremos e isso ninguém quer. De resto, somos todos indecisos, tateando no escuro que é o futuro, sem saber o que nos espera e como reagiremos, sem saber se suportaremos o amanhã e, suportando o amanhã, se teremos forças para o dia seguinte, sem saber de nada continuamos...  a vida continua...

segunda-feira, 1 de junho de 2015

"Avisa que é de se entregar o viver..."

A arte de sofrer por aqueles que não estão nem mesmo roendo a unha do dedo mínimo por mim, eu tenho. Queria ser daqueles que conseguem ter um sono tranquilo mesmo com um amor impossível entrando na sua vida. Que não dispara indiretas amorosas e dramáticas nas redes sociais, atualizando a cada 30 segundos seu feed de notícias, além de desativar e ativar o bate-papo repetidas vezes só pra se mostrar presente ali. Daqueles que não veem coisas simples se tornarem hábito, como passar pela mesma rua, no mesmo horário apenas por saber que aquela pessoa estará também ali.
Desculpe-me se você consegue prosseguir normalmente sua vida mesmo diante do terceiro amor da sua vida nesse ano, mas eu não consigo, sou tentado a protagonizar ceninhas de ciúme, fazendo bico como uma criança, fechando a cara e indo embora mais cedo ou nem mesmo aparecendo em algum lugar, isso tudo pra uma pessoa que nem mesmo sabe da minha existência, muito menos que meu coração bate mais forte. Sinto-me obrigado a demonstrar a cada segundo que eu tô afim, que eu quero me entregar.
Há quem diga que é falta de amor próprio, mas não, é excesso de amor, tanto amor que tenho a necessidade de me doar o tempo todo, de espalhar pedacinhos de mim para aqueles que por um sorriso de canto de boca, ou coisas assim, tem chances de eu querê-lo o resto da minha vida.
Esses que me seduzem com seu jeito de falar, que me contam sobre as aventuras na Cochinchina de anos atrás, tão entusiasticamente que eu penso que foi ontem que tudo aconteceu. Que tem uma risada audaciosa, que me traz uma alegria sem fim, mesmo sem motivos. Que traz muitas coisas num olhar perdido.
Muitos vão achar que é correr risco demais. E, realmente é! Amar é correr riscos, é estar disposto a fugir numa madrugada deixando um bilhete dizendo “fui ser feliz!”. É não se preocupar em saber se daqui a dois anos você ainda estará com aquela pessoa. É pensar no hoje como sendo o seu último dia de sua vida. É entender que se um dia não estiverem mais juntos, será o amor que te ajudará a superar a separação.  É saber que os defeitos é que te atrai a alguém, que faz a pessoa se tornar diferente e única para você.
Por que não correr o risco do amor?! Amar é como aquelas brincadeiras “radicais” demais para as crianças, mas que elas insistem em brincar. Sabe arrancar a ponta do dedão chutando bola? Quantas vezes isso aconteceu com você? Doeu, não foi? Quantos dias você ficou sem brincar por causa disso? Será que durou uma tarde pelo menos? Então, vai ficar com medo de amar? Uma brincadeira que pode lhe causar, no máximo, um coração esfolado e aquela ardência na hora do banho?

O negócio é ser criança! Crianças sabem amar de verdade, sem preocupação, assumindo os riscos de possíveis quedas, esfolados e machucados. Elas sabem que são fortes o suficiente pra aguentar tudo isso e, acima de tudo, sabem que vale a pena. O choro veio só no final, antes disso teve muito riso, muita alegria, muita adrenalina envolvida e é nisso que elas se concentram. Os momentos bons são bem maiores que os ruins. E é por esses momentos que elas não se abatem e logo ficam inteiras de novo, com um curativo ali outro acolá, é verdade, mas logo estão prontas para brincar novamente. E as marcas e cicatrizes que ficaram?! Isso não importa agora. É só pra não se esquecer daquela história, daquele momento que foi bom e que dá saudade. Seja pelo que você é hoje e será no futuro, seja pela criança corajosa que você foi um dia: se entregue, de verdade. Ame!



ps: título do texto é um trecho da música "Pois é" da banda Los Hermanos que, por coincidencia, estava ouvindo no momento em que revisava o texto e percebia que ainda não tinha pensado num título. 

segunda-feira, 25 de maio de 2015

Para o seu eu - meu amigo que anda por aí, escondido dentro de você


Meu querido. Estou com saudade de você que anda sumido, escondido não sei onde aí dentro. Creio que seja no coração, ótimo lugar para guardar pessoas inesquecíveis. Talvez o ‘seu eu maior’, aquele que agora está em destaque, esteja tentando, a todo custo, tomar todo o espaço e por isso nem saiba que esse amigo meu ainda está por aí. É assim mesmo. Às vezes alguns de nossos papeis que um dia fez sucesso, perdem o seu protagonismo.
Como disse tantas vezes (e você nunca acreditou) é normal que se se perca no meio de tantos sentimentos, momentos, pessoas, acasos, tempo, escolhas, desejos, mas é normal também se achar no meio disso tudo, e essa carta é pra que esse seu ‘eu meu amigo’ seja rastreado até ser encontrado. Caso o seu ‘eu maior’ tenha se esquecido de como é a sua faceta pela qual estou procurando, eis algumas dicas: é aquele rapaz confuso que ao mesmo tempo é cheio de opiniões que assustam. Aquele homem grande, visivelmente desajeitado, porém, com tamanha sensibilidade a ponto de ser um artista. Aquela criança que jamais cresceu e, por isso, ainda faz pirraça. Aquele irmão que envolve em brigas mesquinhas como se fosse o caçula. Aquele filho ainda vulnerável que pede para dormir junto com sua mãe. Aquele brutamonte que, não se sabe como, enternece as senhoras. Aquele amigo que nunca vai embora.
Espero que você tenha se lembrado desse papel que, para mim, é o melhor dessa sua carreira brilhante. O protagonista de uma trama tão boa que merece ter continuidade com todos os reparos que a vida nos obriga a fazer, reparos esses que só nos faz crescer. Hoje, vendo que o seu eu dominante deixa o seu ‘eu, meu amigo’ como coadjuvante, não poderia ficar sem te escrever. Usar do extinto paternal que, não se sabe como nem por que, é tão forte em mim, para dizer que por mais necessidade que tenhamos de ser queridos, nem todas as amizades são legais e construtivas. Que ser popular só é bom quando vem de sermos nós mesmos. Que, por mais que queiramos, não temos superpoderes e somos fracos diante de muitas coisas, principalmente daquelas que pensamos dominar. Que o amor só chega quando estamos focados em qualquer outra coisa que não seja o amor. Que existem amarras emocionais que não enxergamos com nitidez, mas que nos desprendermos delas faz uma diferença e tanto. Que o fato de todos fazerem daquela forma não quer dizer que é a forma certa, muito menos a mais bonita e interessante. Que apesar da distância invisível que nos separa a nossa amizade continua a mesma.
E, por último e não menos importante, queria te dizer que a vida é feita de escolhas, você é livre pra decidir qual eu será o protagonista dessa trama que é escrita e vivida a cada dia por você. E que por mais que eu tenha a preferência pelo seu ‘eu meu amigo’, aquele que me acompanhou por diversos momentos, independente da sua escolha eu sempre te apoiarei.

Com carinho do seu amigo, um espectador dessa sua história excepcional.